Rude Praxis Sed Praxis
A Praxe Académica: Uma
Tragédia Cómica em Atos
I. O Rito dos Macacos
Engravatados
Em pleno século XXI, assistimos
ao espetáculo patético de adultos a assobiar para bonecos de pasta, ajoelhados
em praças públicas, repetindo lengalengas com a solenidade de um papa bêbado.
Estes homines academici — ou melhor, adolescentes
prolongati — acreditam piamente que humilhar caloiros com provas de
"coragem" (como beber litros de sangria ou lamber o chão de bares
imundos) os liga a uma linhagem ilustre que inclui Camões, Egas Moniz e Sophia
de Mello Breyner. Que façam favor de mostrar onde, na Geração de 70 ou
nas lutas republicanas, Antero de Quental alguma vez precisou de gritar
"Foda-se a puta que te pariu!" para provar o seu valor intelectual.
(imagem da Renascença)
II. A Fraude Histórica
Invoca-se a "tradição
académica" e nada sabem, como se praxes modernas tivessem algo a ver com:
- As Gaivotas do século XIX,
que combatiam a monarquia entre sermões na Capela de S. Miguel e poemas
subversivos;
- Os estudantes de 1907, que pegaram em armas
contra a ditadura de João Franco;
- A resistência ao Estado Novo, onde a
Academia foi bastião de liberdade, não de pantominas alcoólicas.
Hoje, os herdeiros dessa luta
vestem-se de Harry Potter decadente para bater em porta-copos
e chamar "doutor" a quem decorou o Código da Praxe —
obra que, não por acaso, tem mais artigos que a Constituição e menos sentido
que o Livro de Cocó do Cavaco Silva, como está bom de comprovar,
incluindo o “tradicional” machismo e discriminação sexista, isso sim.
(imagem de youtube)
III. O Paradoxo do Liberalismo
Reaccionário
Estes palermas fora de idade
julgam-se liberais porque bebem e mijam sem pagar impostos,
mas reproduzem hierarquias medievais: o "doutor" praxista é tão
democrático como o Marquês de Pombal a distribuir chapadas. Celebraram o 25 de
Abril cantando Grândola em tunas, mas não percebem que a
canção foi escrita para acabar com exatamente este tipo de
caciquismo. Um estudante de Medicina que passa horas a ensinar caloiros a
gritar "Somos os melhores!" é o mesmo que, daqui a 10 anos, negará
cirurgias a quem não tratar por "Senhor Doutor".
IV. A Praxe como Sintoma de
Burrice Congénita
Nenhum génio da História precisou
de ser praxado para brilhar:
- Einstein nunca decorou o nome dos 12
apóstolos da tuna;
- Fernando Pessoa preferia beber sozinho
no Martinho da Arcada a cantar "Fui ao mar, colher
cordões";
- A primeira-ministra da Islândia não
começou a carreira a lamber cerveja derramada numa mesa de esplanada.
E no entanto, os nossos iluminados acham
que um grito de "É pá, é pá, é praxar!" é o ápice da cultura
ocidental.
(Imagem Bom dia Luxemburgo)
V. Alternativa para Adultos
Funcionais do tempo presente
Se querem mesmo honrar a tradição
académica:
- Leiam livros (sim, aqueles sem
figuras);
- Discutam ideias em vez de copos vazios;
- Lutem por causas — como fizeram os
estudantes que em 1962 ocuparam a Universidade contra Salazar — em vez de
ocuparem WC's para vomitar jagger.
Até lá, continuarão a ser o que
são: crianças grandes a brincar de feudalismo, enquanto o espírito
verdadeiramente liberal e crítico da Academia — aquele que mudou Portugal — se
refugia nas bibliotecas, longe do cheiro a vinho e a imbecilidade.
Epílogo: Daqui a 20 anos,
quando estiverem a pagar a renda tarde porque o "doutor" patrão
também foi praxista, lembrem-se: foi nas noitadas de praxe que
aprenderam a obedecer em vez de pensar. Tradição, hem?
(Ensaio escrito com o mesmo
desprezo que um padre teria por um flashmob de seminaristas bêbados a
cantar o hino da JMJ. A tradição académica que merece respeito é a que nasce da
e produz ciência e intervenção social, não a que produz ressacas e
infantilidades fora de época, é laica e progressista.)
16/06/25
Francisco Colaço
P.S.: Crónica da desilusão de um académico estudante, perante comportamentos não entendíveis de quem se cultivando, no pomar dos saberes científicos, se rega, depois, com "herbicida medieval", matando intelectualmente os intentos de caráter, necessarios para uma boa e inteligível aprendizagem letiva. Não se entende esse suicídio.

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