Chamava-se Luis… … um sinal da nossa vergonha colectiva……
Chamava-se Luis…
……era um sinal da nossa
vergonha colectiva……
Cruzei-me com ele muitas vezes
Vinha do liceu, era adolescente, bebia quase tudo o que me
rodeava….estávamos em 1975 ou 1976…..
Muitas vezes me cruzava com ele….passo regular, descontraído,
olhar vago como que buscando algo….figura simpática…..nada o detinha……
“Um cigarrinho, um cigarrinho”……..pedia-me em jeito de cumplicidade,
por mim consentida………..não era exigência, era um humilde pedido……..como que não
esperando uma resposta, nem se detinha…….no seu “movimento perpétuo”….. era vulgar andar por ali, naquela parte da
cidade de Lisboa mais verde, liberta do betão e debruçada, longamente, sobre o
Tejo…….camisa branca, sempre limpa…….calças de um número ou dois acima, mas
sempre muito bem presas com um eficaz cinto…..
Umas vezes falava-nos de coisas, sem saber se o ouvíamos ou
não…..gritava algumas urgências……ansiedades, pela forma como se expressava……outras
vezes eram murmúrios, sussurrados……lembro-me de alguma coisa sobre o 25 de
Abril………….outras sobre a guerra……a guerra……….algumas vezes era sobre a Reforma Agrária………algumas coisas articuladas saiam…..e sempre sempre continuava a sua
marcha na direcção da Nanú, a pastelaria que antecedia um chafariz nos Olivais
Sul……onde a sua marcha habitual o levava, nunca indaguei, tampouco onde vivia………
Dizia-se na vizinhança que tinha ficado assim na guerra do “ultramar”,
que uma bomba lhe tinha rebentado perto da cabeça………..que era estudante
universitário e tinha sido incorporado a meio do curso…….(só eram incorporados
pela ditadura os estudantes universitários que entravam nas chamadas “actividades
subversivas” contra o regime)…..que vivia com a mãe, ali perto, dizia-se…..
A sua presença tornava-se familiar no bairro, como muitas
outras a que nos fomos habituando….com os anos, como o vendedor de chupas, todo
vestido de branco a com uma mala de cartão onde os transportava pela cidade com
os seus ais lancinantes, bem vocalizados a anunciar a sua venda às crianças, que
logo saíam, com os necessários tostões para a respectiva compra adocicada.
O Luis foi envelhecendo sem alteração do seu estado…….o amarelecido
da ponta dos dedos denunciava um consumo intenso de tabaco…..a magreza era a
mesma de sempre…..as barbas à Ho Chi Min começaram a branquear, mas tudo o resto,
o ar desprotegido, exposto, frágil, era o mesmo….a marcha continuava tranquila,
mas de passo certo na direcção do habitual e diário destino…..”andar, andar, andar
sempre”…..parecia ser o seu paradigma………”um cigarrinho, um cigarrinho”……..
Soube mais tarde que a mãe tinha morrido……o Luis já não “ía
visitar a madrinha tão frequentemente”………notava-se a falta da sua mãe……mas a sua
rotina fazia-se na mesma……o seu olhar vazio, distante, continuava sempre no
mais além, ainda que por vezes um olhar de cabeça ligeiramente inclinada, para
o chão, fizesse adivinhasse como que um refúgio de recentramento…….para de novo
prosseguir o seu circuito rotineiro…….assim era o nosso Luis…….
Habituámo-nos a ele…….os anos foram passando mas ele sempre
aparecia e estava presente….
Tinha já o nosso carinho……nunca fazia mal a ninguém…………isso
era algo que lhe tinham feito a ele e o tinham marcado definitivamente para a
vida……..
Hoje lembrei-me do Luis, do nosso frágil Luis…….já mais
velho, já não “ía à madrinha”….. necessitava de cuidados e atenção que denotava
já não ter…….mas resistia com o mesmo olhar terno de quem tentava entender o
que lhe tinha acontecido…..e seguia, seguia sempre a sua marcha…..
Lembrei-me do Luis, uma vítima da guerra, no “ultramar”….que
me diria ele hoje sobre os figurões que por aí estão a emergir na política
nacional? Que protestos e que raiva contida transmitiria se soubesse que são os
mesmos que mantiveram a guerra, e que a não queriam acabar? Amigos dos que
acabaram com a sua reforma agrária e por pouco também com o seu/nosso 25 de
Abril…..
Que ansiedades transportaria hoje o peito do nosso Luis?
Isto seria possível saber se uns tantos inqualificáveis seres,
jovens, ao que me disseram, o não tivessem regado com gasolina e ateado com
fogo……o Luis, fugiu, fugia à medida que as chamas mais e mais o íam consumindo……….qual
napalm na selva urbana dos Olivais em Lisboa…..
A desumanidade urbana tinha-se instalado, a inqualificável leveza
criminosa de uns quantos comportamentos estavam a emergir na nossa sociedade……..outros
crimes de ódio, já não meramente social, se seguiram, outras tantas vítimas…….e
nós que fizemos?
Por isso quando hoje vejo um panfletário do ódio fazendo
campanha nos mass media e vejo muita gente chocada, quase me apetece dizer, “Há
muito que andavam por aí, mas ninguém os queria ver”….agora deram a cara, já
meio lavada. desses impulsos descaradamente criminosos…….e cobardes…….
Hoje lembrei-me de ti, Luis….merecias que te tivéssemos cuidado
melhor………aquilo que o país que serviste não soube fazer por ti, cuidar-te, podíamos
tê-lo feito nós……..não só o não fizemos como permitimos que cobardes te tivessem
assassinado selvaticamente………e o que se passou depois do teu assassinato?????
Nada………eras só “um pobre diabo” Luis………….tal como o cidadão ucraniano
assassinado no aeroporto por uma força policial do estado………a quem ninguém deu importância
ou valor, até que uma consciência não conseguiu dormir mais com o seu silencio cúmplice……nove
meses depois Luis….e tu Luis, há quantos anos te assassinaram? Como te poderemos esquecer? Como te teremos
de lembrar, Luis?
Eles andam de novo por aí………..e nós continuamos a assobiar
para o lado……..parece que não aprendemos, Luis…..
*Em memória de todos os que como o Luis são vítimas da nossa
indiferença
Francisco Colaço
