(Des)Educação
(Des)Educação
Todos os indicadores internacionais com evolução do PIB per capita, em termos absolutos ou em paridade de poder de compra, nos dizem que os países mais bem sucedidos foram (e são) aqueles em que a aposta na educação foi a pedra-toque para o aumento das qualificações individuais e colectivas da sociedade - a prazo, esse aumento das qualificações não só teve impactos positivos na produtividade como possibilitou um maior investimento em I&D. Os Países de Leste têm níveis de escolaridade que não são para inglês ver - os estudantes trabalham duro para conseguirem atingir os objectivos; a Irlanda, um dos países mais atrasados da Europa nos anos há 60 anos, está hoje no topo dos indicadores de crescimento do PIB - também aqui, este sucesso deve-se à aposta contínua na educação formal da população.
Por cá, depois da reforma do Veiga Simão (e já lá vão quase 60 anos) andamos de reforma em reforma, nenhuma chegando ao fim, num ziguezaguear permanente de aposta sucessivas que mais não fazem do que ir baixando de forma consistente o nível de exigência de conhecimento efectivamente detidos pelos discentes, com o consequente débil aumento da produtividade e reduzido investimento em I&D - com a agravante de se irem degradando os salários (em paridade de poder de compra). E já passaram 50 anos de desnorteio.
Poder-se-ia pensar que a situação de pandemia vivida desde Março de 2020 iria provocar no ensino duas coisas essenciais para a sua efectiva melhoria: redução acentuada do número de alunos por turma (o que possibilitaria uma maior dedicação por parte dos docentes àqueles que revelassem maiores dificuldades de aprendizagem - não deixando ninguém para trás) e uma aposta em sistemas de ensino de base tecnológica (o que aumentaria os níveis de literacia em tecnologias da informação). Este mecanismo teria ainda a vantagem de provocar uma renovação e um rejuvenescimento dos docentes, classe hoje muito envelhecida e muito desconsiderada pelos poderes públicos.
Sem pandemia, a Dinamarca tem turmas de 15 alunos e de dois professores por disciplina (enquanto um dá a matéria, o outro prepara outra e faz avaliação; depois trocam e, na base da carreira, ganham 3.500€).
Mas não, o Governo optou antes pela continuação dos mesmos modelos, esgotados e esgotantes, de muitos alunos por turma, por currículos inadequados e de pouca aderência às necessidades do dia-a-dia (qual o sentido da poesia trovadoresca para o ensino profissional, só a título de exemplo, quando os alunos não conseguem saber compor um texto que faça sentido em português coloquial do século XXI?).
Em confinamento, alega-se que os alunos não conseguem aprender. Mas sem confinamento também não aprendem, e ao prejuízo somam-se prejuízos. Quem pare por meia hora às portas de uma escola secundária pode bem ver qual o comportamento dos alunos e das alunas em matéria de saúde pública - poucas máscaras; nenhum distanciamento físico; partilha de telemóveis e de outros materiais susceptíveis de transmissão de vírus… mas, dizem os governantes, não há risco ou que será pior o do insucesso do sistema de educação. O tempo o dirá.
Assim como não se combate o insucesso escolar com o abaixamento dos padrões de avaliação de conhecimentos, também não se combate a transmissão do Covid-19 fechando os postigos e pondo as escolas a todo o vapor.
Esta posição é (será) politicamente incorrecta, mas não afirmem que estamos perante a geração melhor preparada de sempre - é uma mentira colectiva que dizemos a nós mesmos. Estamos, sim, perante uma geração que se encontra impreparada para respeitar as mais elementares regras de convívio social em segurança, o que diz muito sobre a incapacidade do modelo educativo nacional - talvez diga mesmo tudo!
Miguel R

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