Leituras políticas de uma eleição-reality-show


Leituras partidárias (legislativas ou autárquicas) de uma eleição que pouco mais é que um reality show (quantas pessoas conheciam as ideias de cada candidatura?...) são sempre abusivas e deslocadas. Se eleição se prestava a sebastianismos de protesto era esta; não surpreende, pois, que a(s) candidatura(s) eleita(s) pelos media e pelas mesas de café/casino (escolher o que não se aplica) tenha(m) colhido dessa escolha muito benefício - e é bom não esquecer que existiam DUAS candidaturas com essa natureza.
 
Sem prejuízo disto, fica parcialmente demonstrado o poder de mobilização de grupos mais pequenos e com mensagens que se reduzem, linguisticamente, a slogans: quanto mais pequeno o grupo, mais facilmente se mobiliza; quanto mais simplórias as suas 'soluções' para problemas complexos, quanto mais minimal e ofensiva a linguagem, mais uma parte crescentemente invisível da população vê nelas/es uma 'alternativa'.

Também por isso, compreender o significado deste resultado passa ainda por conhecer (por exemplo) um pouco da História do desaparecimento das esquerdas europeias, designadamente em França e no Reino Unido. dada a insatisfação dos respectivos eleitorados perante a ausência (ou publicitação efectiva) frequente de resultados práticos da representação política que elas constituem.
 
É também a consequência de décadas de governação ao centro e à direita, designados 'moderados', quando nada na sua acção constante de liberalização económica e consequente perda de poder real de compra e de segurança no trabalho pode ser considerada moderada - mais contribuindo para aumentar, nas franjas, a dimensão do eleitorado desprotegido.
 
A muito disto assistem desde os anos 70 as figuras políticas e os partidos de esquerda - historicamente mais apetrechadas/os e mais próximas/os das realidades desprotegidas - como a um acidente em movimento lento. Talvez fosse altura de aprenderem alguma coisa - de deixarem de disputar campeonatos de pureza conceptual e de compreenderem que não se é aceite como representante por pessoas a quem conhecemos mal, a quem não ouvimos com a frequência devida, ou cuja linguagem não sabemos tornar nossa com a humildade de quem quer servi-las.
 
Notas finais:
 
- sem surpresa (tivemos só TRÊS eleições nos últimos anos a demonstrá-lo), as sondagens sobrestimaram a honestidade de quem inquirem, esquecendo que o voto nas ofertas políticas mais extremadas raramente é assumido, em toda a sua dimensão, nos inquéritos;
 
- mais de quatrocentas mil pessoas em Portugal acreditam que viveriam bem com o corte de fitas e o carimbo de papéis (a pouco mais se resumem os poderes efectivos da Presidência) se praticado por alguém que afirmou, com todas as letras, não querer desempenhar o cargo à luz da Constituição nem em defesa de todas as pessoas que ela protege. Fica por saber se muitas dessas quatrocentas mil pessoas abdicariam tão rapidamente da mesma Constituição se soubessem o tudo de que abdicariam, e se têm real consciência de que não teriam 'bilhete' para continuar no 'carrossel' da cidadania caso a candidatura que apoiaram vencesse;
 
- cada candidatura verá nos seus resultados uma vitória - em boa verdade nem era necessária a eleição: a propensão para a auto-gratificação só ombreia, como desporto, com o futebol. Mas o caneco desse campeonato tem de caber, ex-aequo, ao lider da juventude centrista (quando afirma o 'sucesso' da opção de apoiar MRS pois 'não fragmentou a direita', como se surgisse sequer no mapa caso tivesse apresentado candidatura própria) e à IL (que falou de uma 'onda liberal', quando há insectos a mover mais a água da chuva nas fissuras da estrada).

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