Salvar a democracia e a República
A imagem de um país pode ser dado pela forma como estão a ser distribuídas as vacinas, havendo um critério previamente definido pela autoridade nacional. As violações a esse critério são transversais......desde classe médica a administração de lares, a autarcas e seus familiares, responsáveis da segurança social, membros do clero.......etc.
Ou o sentimento de impunidade é grande, ou esta é a cultura funcional instalada e neste caso dá, por demais, nas vistas, por ser em duas tomas e tem de haver registo, ou necessitamos de, mais vezes existirem responsabilidades penais, que não prescrevam, que não possam andar eternamente a recorrer de órgão para órgão, ou que esse recorrer não conte para os prazos de prescrição e que os agentes políticos tirem consequências imediatas das responsabilidades políticas, demitindo-se e abrindo caminho à demissão simultânea dos subsequentes responsáveis, dando o exemplo.
Estou convencido que como país não poderemos continuar assim....
Na gestão de uma pandemia existir tanto chico-espertismo, sem consequências, e compete à tutela, ao governo, mais do que ameaçar, compete ser consequente e produzir imediatamente legislação adequada para prevenir e punir estas cavaladas lesivas do interesse público, violador das leis em situação de pandemia e uma vergonha para o país.
A narrativa de que lá fora é igual entristece-me, porque no geral copiamos e justificamos o que há de pior, mas jamais o que há de melhor, "lá fora".
Sei que tivemos 48 anos de atavismo, de chico-espertismo institucional, de corrupção generalizada, de uma elite imperialista corrupta, da ditadura salazarista, que devassava os bens do país e das suas gentes mais humildes. Mas o 25 de Abril foi em 1974. Sei que culturas de décadas se tornaram transversais com a democratização. E a democracia não trouxe o direito "democrático" de todos sermos corrompidos ou corruptores, mas sim a obrigação de essa "doença social" ser extirpada de vez.
Mas isso ainda não aconteceu, infelizmente. A democratização da corrupção não me traz nenhuma satisfação relativamente à da anterior elite económica e política que durante 48 anos manteve esse exclusivo, sempre "A bem da Nação".
A demissão do coordenador do plano nacional de vacinação, que não conheço, deveu-se certamente, à vergonha de ser administrador de uma instituição, Cruz Vermelha Portuguesa, que apesar de ter recebido indicações claras sobre o seu plano de vacinações o violou descaradamente.
"Entre as suspeitas apuradas estão, por exemplo, a administração de doses a médicos que não exercem funções na unidade há muito tempo, alguns há cerca de um ano." lê-se na imprensa de hoje.
Um bom exemplo ficou dado, foram assacadas responsabilidades políticas, o que me parece bem.
Ainda temos gente que por vergonha, e sem responsabilidade directa se demite perante um caso destes. Os meus cumprimentos ao dr. Francisco Ramos, pois não existe essa cultura na administração publica portuguesa, ou o ministro da administração interna há muito se tinha demitido. E a ex-directora do SEF jamais poderia ser de novo convidada a trabalhar para serviços públicos na mesma área que chefiou, onde fez uma gestão deplorável e de onde se acabou por demitir 9 meses depois de actos internos criminosos na sua instituição.
Portugal, a democracia e a República jamais poderão continuar a ser geridos com esta falta de cultura ética e com esta impunidade generalizada, com esta justiça disfuncional por excesso de regulamentação, que por vezes se contradiz e por estes comportamentos patológicos que instalam na cidadania uma grande desconfiança na democracia e nas suas instituições.
A vergonha do PS em rejeitar o pacote anti-corrupção do João Cravinho não está esquecido. Foi em 2007.
"Relativamente às duas iniciativas em matéria de corrupção, que João Cravinho se recusou a especificar, uma “não tem consenso” dentro da bancada parlamentar socialista, e “outra [das propostas] tem matérias consensualizadas” e outras, que o deputado reputa de “essenciais, não consensuais”.
Cravinho deixou reunião de bancada antes do fim
João Cravinho, que se recusou a responder a qualquer pergunta dos jornalistas, admitiu ainda ter atingido o limite do seu poder enquanto deputado." in Público 18 de Janeiro de 2007, 20:41
Em qualquer país democrático, uma situação (recusa legislativa) destas deveria provocar um levantamento democrático cidadão. Mas não se passou nada. Nem de dentro do próprio partido.
É no Bloco Central que reside a maior incidência de situações reprováveis e inaceitáveis do ponto de vista da corrupção. Não esquecer o caso BPN/SLN/PSD entre outras, qua acabou por envolver até o próprio Presidente da República de então, numa transação mais que suspeita de acções.
Portugal necessita de um profundo "choque profiláctico" anti-corrupção ou a democracia e a República ficarão irremediavelmente em perigo.
Cumpre-nos exigir e zelar pela sua aplicação. Sem exigência cidadã não o conseguiremos.
As rotinas institucionais terão de levar um abanão. O acomodamento é inimigo da democracia.
Sou otimista, creio que o vamos conseguir, mas não se ficarmos expectativa. Há que agir, exigir e reclamar.
"Alea Jacta Est"
"Vem vamos embora
que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora,
não espera acontecer"
Francisco Colaço

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