Saúde sexual e reprodutiva - Só para mulheres!



Por razões profissionais, tive acesso integral ao questionário do Inquérito Nacional de Saúde, encomendado pelo Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge e posto em campo pelo Instituto Nacional de Estatística, e que decorreu entre Setembro e Dezembro de 2019.

Tendo algumas luzes sobre como fazer e como não fazer um inquérito, fiquei siderado com a forma como este foi concebido… Já sei que me vão dizer que esta formulação deriva dos formulários europeus naquilo a que se chama “indicadores europeus comuns” e, assim, não há como lhes escapar.

A desculpa, à partida, é frouxa, porque se as ilustríssimas instituições europeias querem desconhecer a realidade da saúde é lamentável… que as instituições portuguesas sigam tão mau exemplo é simplesmente criminoso.

Pior ainda quando a formulação de algumas perguntas (por exemplo, nas questões da alimentação) misturam alimentos de natureza diferente e com reflexos muito diferenciados na saúde humana - por exemplo, sabe-se que o consumo de carnes vermelhas faz aumentar o risco de doenças cardiovasculares, mas o inquérito faz tábua rasa dos dados científicos e põe as carnes todas juntas; e o mesmo se poderia dizer do marisco ao molho com o peixe.

A questão implícita é mesmo que se pretende saber sobre os hábitos de consumo alimentar em Portugal, as perguntas estão mal formuladas, baralham conceitos e não medem de forma eficaz os riscos a eles associados. O que se vai saber assim? 

Mas o inquérito faz ainda pior no que se refere às questões relativas à saúde sexual e reprodutiva. Esta área de perguntas está reservada exclusivamente a mulheres entre os 15 e os 55 anos (isto é, aquilo que estatisticamente é considerado como mulheres em idade fértil). Os homens de qualquer idade estão isentos de responder, bem como qualquer outra pessoa fora do escalão etário definido - asserção: não há actividade sexual nem antes dos 15 anos nem depois dos 55 anos. Asserção profundamente errada, estereotipada e sexista.

Errada porque pressupõe que apenas as mulheres em idade fértil têm relações sexuais e, portanto, que o sexo só serve para a reprodução da espécie; errada porque faz tábua rasa das questões associadas às doenças sexualmente transmissíveis (não há uma única pergunta sobre esta questão); errada porque não questiona os homens sobre nada que a isto diga respeito.

É estereotipada porque remete para a responsabilização exclusiva da mulher no que à saúde sexual e reprodutiva as práticas nacionais digam respeito; iliba os homens de qualquer acção na prevenção das DST e na promoção de práticas saudáveis.

E é profundamente sexista por todas as razões já indicadas acima, mas também por assumir que as práticas sexuais se limitam ao binómio homem-mulher. As pessoas LGBTI+ não cabem aqui, não são consideradas as suas práticas sexuais enquanto contributos para a saúde global dos indivíduos em Portugal.

Fazer inquéritos assim é perpetuar preconceitos, estereótipos, erros e, mais grave, é contribuir directamente para o desconhecimento da realidade que se pretende conhecer. Desta forma, não haverá nenhuma política de promoção de saúde sexual e reprodutiva que possa colmatar as falhas que todas as anteriores já demonstraram possuir.


Miguel R

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