"Omnia tempus habent"
Era uma vez um menino.
Um menino que tinha herdado como suas as ruas da cidade onde vivia.
Era afável, brincalhão, honesto……
Viveu-o intensamente, acreditou ser possível…investiu nele, quando ele se fez rua, o seu mundo….
Afinal era um mundo novo que se discutia e planeava…e ele acreditou honestamente que tal era possível …
Tornou-se homem, teve companheiras, trabalhou como todos, para poder viver…
Mas tinha um handicap… era o “fininho”… o fino era sempre uma boa companhia….o fininho de dois dedos de conversa numa qualquer mesa, que podia ser no "Estrela" ou no "Mandovi"....ou outro...
As vezes exagerava ……mas sempre divertido, sempre alerta, sempre uma palavra de inquietação…sempre foi pobre, muito necessitado e sempre que possível, ajudado…teve bons amigos...mas sempre manteve um “brilhosinho nos olhos” de um sonho antigo, de juventude….de que um outro mundo era possível…bem diferente deste de pobreza e de dificuldades…
Nunca perdeu esse brilho…de ladino, de atento, de inquieto e revoltado, mas uma revolta tranquila, mais um estado de espírito para a vida que não escolheu….mas lhe coube por “herança civilizacional”.
Gostava da nossa atenção de amigos, fazia parte, também, dos nossos afectos, das nossas memórias de outros tempos, tempos convulsos e também generosos…Tinham sido os anos 70, a caída da ditadura, o fim da guerra colonial...
Mas a vida com ele foi pouco generosa, por opção, sempre limitada ou por “destino”.foi dura…ele lá ia resistindo…com o mesmo olhar ladino e atento……sempre orgulhoso da sua herança …as ruas da Invicta… e o seu FCP...sempre esperançoso num mundo melhor, sempre ….
(foto do meu amigo Armando Baldaia)
Continuará, assim mesmo estrelinha, quero acreditar…..no firmamento também existe esperança num mundo novo ……e essa é sempre a última que se perde…..e creio que na minha geração jamais se perderá...
Quero acreditar, amigo, que estás bem, noutra dimensão, sem nunca abandonares esse olhar atento nem essa esperança contida, algo desconfiada, mas que nunca abandonaste…
Até um dia destes…
Já voltaremos aos nossos finos, e discutiremos histórias passadas e de novo, perspectivas de um futuro desejado …
Eu um "mouro", com um querido amigo, "tripeiro"...
Sentiremos a tua falta…..eras parte de todos nós……
Descansa em paz….amigo …..
Miguel Colaço

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