A Casa

 

A casa




 

Era uma porta.

Aberta há muito…

A casa tinha muitas portas. Todas na mesma direcção. Todas abertas era um corredor grande.

Circulavam por elas muitas coisas.

De janelas eram mais de que uma por dia, num ano…

Circulavam pensamentos, vivências, mágoas, alegrias, esperanças, desilusões…

Em cada divisão havia uma “herança”. Uma vida, uma história……

Hoje a casa está vazia, (estará?)……excepto numa divisão……..essa ainda quente, viva.

Os ventos frios entram pelas janelas do norte e circulam para amenizar as ausências com os arrepios das correntes de ar ainda incomodativas. A Primavera ainda mal se anuncia…

As coisas estão nos seus lugares, há muito tempo. O calor das vida está só numa divisão, onde ainda se vivem memórias antigas, cultivadas com carinho. Ainda, aí, bate um coração que sente e persiste em reviver tudo isso.

Uma casa é um mundo. Com passado, presente e futuro, espera-se. Espera-se esta continuidade. Os mundos nunca acabam, só vão mudando de estação. E uma delas faz brotar a esperança, cada ano.

Uma casa nunca está vazia, na verdade. Está sempre cheia dos seus habitantes que persistem na memória dos resistentes. Essas memórias vão-se transmitindo a assim se vão enchendo os espaços com os afectos, as histórias, os carinhos e os gritos de toda a sua história.

Preservar tudo isso é como preservar a vida no planeta Terra. Temos esse dever.

As casas são como as pessoas, coisas vivas, testemunhos vivos, a serem cuidadas com carinho, sem as descaracterizarem. E ficarão com a nossa marca, também. Coisas vivas não se destroem, acrescentam-se, cuidam-se, fazem parte de nós e nós delas.

Por isso não simpatizo com apartamentos, “caixas de fósforos” diria minha avó, gaiolas de um aviário gigante, de gente grande, era como os via. "Galinha do campo não quer capoeira" desabafava comigo, quando no Inverno tinha de passar meses em casa dos filhos, na cidade grande.

No campo, cada casa é um mundo, é única, tem personalidade e espaço próprio. Representa-nos quando não estamos. Abriga-nos quando estamos. E fala connosco, sobre todas as suas memórias………..é muito bom. Também terei de falar com ela. Farei por isso.

(Enquanto escrevia esta espécie de poema, que foi saindo, escutava o álbum de Patxi Andion “A Donde El Água” de 1973 – na verdade fez-me escrever - lembrei minha avó e minha mãe)

 

Boa noite, fiquem bem

4/4/23

Francisco Colaço

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