Portugal e os "coronéis".

 

Crónica: Portugal, um Ilhéus Moderno

O nosso país parece ter regressado a um tempo que julgávamos superado, onde os fios do poder se entrelaçam em teias pouco transparentes. A justiça, que devia ser farol, mostra-se por vezes refém de interesses instalados, mercê de alguns agentes pouco dados a estas coisas da verdadeira justiça, cega, surda e muda, enquanto a política se faz com métodos que lembram os antigos coronéis — agora de fato e gravata em vez de chapéu de couro. A imprensa, outrora vigia da democracia, debate-se entre a independência e as pressões de um mercado cada vez mais concentrado, monopolista.

Desde que esta governação tomou posse, o tráfico de influências e o jobs for the boys tornaram-se moeda corrente. As nomeações para cargos tecnicamente apartidários multiplicam-se como cogumelos após a chuva, enquanto a oposição, frágil e sem rumo, não consegue apresentar nem visão estratégica, nem um Dr. Mundinho que lhe empreste coragem. Restam, é certo, alguns quilombos dispersos — social e etnicamente diversos —, mas a resistência, embora valente, é ainda insuficiente.



E atenção: não faltam por aí outros coronéis Ramiros, noutras pradarias políticas, mas até esses começam a enfrentar revoltas. Este país não pode continuar refém dos monopólios dos coronéis do capital. Democracia pluralista e monopólios são como água e azeite: não se misturam.

É urgente um projeto. Uma estratégia. Um programa que seja, de uma vez por todas, anticorrupção, antimonopólios, e que honre — quem sabe? — até o legado de João Cravinho, aprovando legislação clara e intransigente contra os vícios do poder e a corrupção. É preciso escrutinar democraticamente o aparelho de justiça, acabar com os feudos dos coronéis, integrar as populações imigrantes na economia e na sociedade, e desenvolver políticas sociais concretas — saúde, habitação, educação de qualidade — que eduquem para a democracia e para a liberdade.


Esse programa não pode nascer de um gabinete fechado. Deve ser construído num grande Encontro para as Alternativas, um fórum nacional onde se discutam e aprovem as bases de uma governação a médio prazo. Não medidas avulsas para agradar a um ciclo eleitoral, não casos e casinhos, mas um projeto estrutural, nacional, que construa o futuro. Um país justo, democrático, moderno e desenvolvido não é um sonho — é uma obrigação, para tod@s!

Aos mais novos, que talvez não conheçam os paralelos históricos, sugiro a leitura de Gabriela, Cravo e Canela, de Jorge Amado. Lá entenderão a metáfora: Portugal, hoje, está outra vez nas mãos dos descendentes dos coronéis, com os jagunços e capitães do mato à espreita, prontos a erguer os seus feudos.

Se deixarmos.

Inté.




(Imagens públicas da 1ª versão, em telenovela, da obra de jorge Amado, 1975, Gabriela, Cravo e Canela, da Rede Globo)

Francisco Colaço

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